domingo, 19 de dezembro de 2010

Nossos hospitais enfermos

Os governos vêm terceirizando os serviços de saúde e minimizando as funções do Estado, o que põe a vida humana sob o critério do mercado, o mesmo aplicado ao comércio de ovos e tomates...




Persistente questão do erro hospitalar teve mais uma vítima no sábado de madrugada, dia 4, no Hospital Municipal São Luís Gonzaga, no Jaçanã (zona norte), em São Paulo. O São Luís Gonzaga, com mais 38 outros hospitais, é administrado pela Santa Casa de Misericórdia, uma instituição de referência. A menina Stephanie dos Santos Teixeira, de 12 anos, para lá fora levada na noite de sexta-feira, com dores abdominais, vômito e diarreia. Já recebera dois frascos de soro e recebia, supostamente, o terceiro quando faleceu. Foi constatado então que esse terceiro frasco, em vez de soro, continha vaselina líquida. Assumiu a responsabilidade pelo engano uma auxiliar de enfermagem, de 26 anos de idade. Mas alegou, em depoimento à polícia, ter sido pressionada por sua chefe a agilizar o serviço, pois "a ala de pediatria estava muito cheia".
Isso não a dispensa da responsabilidade profissional de ser cuidadosa, como não dispensa o hospital de ser uma instituição profissional, técnica e eticamente organizada para curar e salvar vidas. Senão a culpa recairá sobre o frasco ou sobre a cor de sua tampa. A auxiliar de enfermagem acabará carregando sozinha nas costas e pela vida afora o erro que tirou a vida de uma menina. Um conjunto de ineficiências somadas colocou em suas mãos o produto errado e fatal, como se depreende das informações fornecidas pelo próprio hospital. Os frascos de soro e de vaselina eram completamente iguais, no material de fabricação (vidro), no tamanho, no formato, na cor, na tampa de plástico azul e na cor, tamanho e formato das etiquetas, que diferiam apenas no teor. Um tipo de equívoco que nem mesmo os artesãos de pequenas oficinas cometem, com suas ferramentas e seus materiais sempre em ordem e apropriadamente identificados, o trabalho racionalmente organizado.
Um especialista explicou que soro em frascos de vidro ainda existe, mas é raro. Se já tivessem sido normatizados como frascos de plástico, que é a regra geral, a auxiliar de enfermagem teria percebido, no simples toque, a diferença entre eles e o frasco de vaselina. E, se essa distinção fosse uma norma de serviço, ela própria teria percebido a iminência do erro. Outras distinções, de cor, tamanho, rótulo, código, leitura eletrônica de um código de barras e automático bloqueio em face dos registros de referência da paciente e do tratamento prescrito teriam evitado o erro, mesmo na movimentação extraordinária, própria dos locais de atendimentos de emergência.
Não é raro que se saiba que há nos hospitais problemas quanto à observância dos protocolos de procedimentos a serem seguidos em cada caso. Excessiva confiança pode levar médicos e auxiliares a desdenhar desses protocolos, que são para evitar enganos fatais. Algo assim ocorreu com um menino de 6 anos que morreu de gripe suína, em São José do Rio Preto, no mês de maio. Ele passara por quatro unidades de emergência e em todas fora medicado e liberado sem que tivessem sido feitos exames detalhados de sua condição. Embora o protocolo se destine a padronizar o atendimento e evitar erros e esquecimentos, nem por isso dispensa médicos, enfermeiros e auxiliares de criatividade e sensatez.
Alguém alegou, no caso do Jaçanã, que o declínio da qualidade do ensino de enfermagem responde cada vez mais por erros e problemas. A questão, no entanto, é também outra. Pensando nos hospitais públicos, que acabam indevidamente satanizados em ocorrências assim, o que esses casos sugerem é o desencontro entre a qualidade dos serviços médicos e a dos serviços auxiliares. O mesmo desencontro que há na área de educação, na escola pública: professores capazes, mas com sua atividade pedagógica empobrecida por serviços auxiliares aquém do requerido.
Os governos federal, estaduais e municipais vêm há muito desenvolvendo argumentos e políticas de terceirização dos serviços de saúde e optando pela minimização das funções do Estado na saúde pública - o que põe a vida humana sob o jugo de critério impróprio, que é o critério do mercado, no fundo o mesmo que se aplica no comércio de ovos e tomates, a mesma lógica, os mesmos princípios. É inútil o médico e o enfermeiro se esmerarem no atendimento se ele for regulado pelas restrições impostas pelo primado do lucro ou pelas limitações que acabam redundando em economia de vida para fazer economia de dinheiro. A economia hospitalar acaba sendo dispensada da sensatez de uma economia política da vida, com repercussões muitas vezes danosas nos próprios serviços médicos; um cenário de descuidos em que a omissão de um técnico é, no mais das vezes, expressão e efeito do modo equivocado e até irracional como o conjunto da instituição hospitalar está organizada. Mais do que questões puramente médicas ou éticas, esses casos indicam uma questão sociológica de valores sociais, de concepções de referência na divisão do trabalho e na definição de procedimentos médicos e hospitalares.

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